Basta bater o olho em três parágrafos para reconhecer o padrão: simetria rígida, conectivos empolados no início de cada frase, parágrafos com exatamente o mesmo comprimento e aquele fechamento que parece conclusão de redação de vestibular.
O texto gerado por modelos de linguagem sofre de uma espécie de anemia estilística. Em inglês, a comunidade chama isso de AI slop. Em português brasileiro, o fenômeno ganha contornos próprios, misturando burocracia de repartição pública com autoajuda corporativa.
Para resolver isso nos meus fluxos de trabalho com agentes, desenvolvi a skill open-source humanizar dentro da coleção Agentic Skills, disponível no repositório fabricioctelles/skills e no catálogo do skilldev.pro.
Não se trata de um aplicativo fechado ou de uma ferramenta mágica de bypass. É uma skill no formato aberto Agent Skills que você pluga direto no Claude Code, Cursor, Windsurf ou Kiro.
O vício da IA em português brasileiro
Quando comecei a mapear padrões de escrita de máquina, a referência mais conhecida era a documentação do projeto da Wikipedia em inglês (Signs of AI writing), além da skill pioneira criada pelo @blader. O problema é que o português brasileiro tem armadilhas que o inglês simplesmente não conhece.
Modelos treinados em corpora mistos tendem a buscar formalidade no vocabulário arcaico. De repente, um simples e-mail técnico ou post de blog aparece repleto de termos como:
- Ademais, outrossim e destarte (conectivos jurídicos usados fora de qualquer contexto formal);
- Cumpre salientar, vale ressaltar e é mister observar (marcadores vazios de relevância artificial);
- Gerundismos procedurais (vamos estar analisando, buscando trazer);
- Falsos paralelismos traduzidos ao pé da letra do inglês (não apenas X, mas Y);
- Aberturas previsíveis (No cenário atual…, Em um mundo em constante transformação…).
Catalogamos mais de 55 padrões na documentação da skill. Dez desses padrões existem exclusivamente na língua portuguesa.
Tip
A skill não tenta proibir palavras individuais. Um termo jurídico faz sentido em uma petição real. O problema é o acúmulo descontextualizado que transforma qualquer parágrafo técnico em prosa oca.
Ablação semântica: por que a máquina nivela tudo por baixo
Um dos conceitos centrais que orientam a skill é a chamada ablação semântica, discutida em artigos técnicos recentes (como na cobertura do The Register em 2026).
Modelos de linguagem operam por aproximação probabilística. Na busca pelo caminho mais seguro e polido, eles reduzem a entropia do vocabulário, eliminam o atrito natural das ideias e empurram o texto para um registro médio morno. O resultado não é necessariamente gramaticalmente errado; é apenas desprovido de vida.
Existe uma tentação comum no mercado: criar ferramentas voltadas apenas para burlar detectores de IA como Turnitin ou GPTZero. Essa abordagem costuma piorar a redação. Detectores automáticos erram com frequência, operam com falsos positivos contra textos claros e penalizam de forma desproporcional quem é neurodivergente ou quem não escreve na sua língua materna.
Por essa razão, a premissa da skill é direta: o objetivo é recuperar ritmo, clareza e voz humana autêntica, e não tentar vencer placares de ferramentas de pontuação probabilística.
A primeira lei: Trava Factual
O maior perigo ao tentar dar voz a um texto técnico é a invenção deliberada. Muitos prompts ingênuos de humanização instruem o modelo a criar histórias, inventar anedotas pessoais ou chutar dados estatísticos para parecer mais descontraído.
Na skill humanizar, a regra mestra é a Trava Factual.
O conteúdo de base é considerado intocável:
- Fatos, nomes e dados: nenhuma métrica, data ou citação pode ser alterada ou inventada.
- Concretude real: se faltar um dado específico para ilustrar o argumento, a skill prefere apontar a lacuna ao usuário a preenchê-la com ficção plausível.
- Precisão técnica prioritária: blocos de código, comandos de terminal, fórmulas e identificadores nunca são modificados por capricho de estilo.
- Sem infantilização: simplificar a forma nunca significa reduzir a densidade do raciocínio técnico.
Brevidade comprime a forma, nunca o conteúdo. Avisos de segurança, limitações de arquitetura e ressalvas operacionais permanecem íntegros.
Quando usar cada modo de operação
A skill possui quatro modos de operação para atender a diferentes momentos da rotina de quem escreve ou desenvolve.
1. Modo Criação (modo_criacao)
Ideal quando o texto ainda não existe e você precisa redigir uma documentação, post, release ou proposta do zero.
Aqui não há texto-fonte anterior para consertar. A lista de 55 vícios atua como um filtro de saída: você gera o primeiro rascunho com liberdade e depois aplica uma varredura sobre os cinco desvios mais frequentes de textos novos:
- Travessões de aparte usados no meio da frase;
- A fórmula não apenas X, mas também Y;
- Conectivos automáticos abrindo parágrafos (além disso, dessa forma);
- Trios forçados de palavras;
- Fechamentos moralistas ou otimistas genéricos.
2. Modo Revisão (modo_revisão)
Projetado para pipelines multiagente e auditorias de código ou documentação.
Neste modo, o agente recebe o texto produzido por outro modelo, faz um diagnóstico estruturado por categoria (Conteúdo, Linguagem, Tom, Composição, Estilo e PT-BR) e devolve o texto corrigido acompanhado de um relatório transparente das alterações.
3. Modo Completo e Modo Direto
O modo_completo é o padrão interativo para o dia a dia, com autocrítica em até três passagens. O modo_direto foi pensado para agentes autônomos e scripts automatizados, executando em passagem única para economizar tokens sem abrir mão das proteções.
Perfis de voz calibrados para contextos reais
Humanizar não significa falar como adolescente no Twitter nem adotar gírias forçadas. Cada contexto exige um tom específico.
A versão atual conta com perfis calibrados para diferentes necessidades:
- Crônica: inspirado na tradição literária brasileira de autores como Rubem Braga e Fernando Sabino. Mistura coloquialidade controlada, observação prática e ritmo irregular;
- Jornalístico: clareza sóbria, voz ativa, ordem direta e foco estrito nos fatos verificáveis;
- Corporativo Informal: o tom adequado para mensagens no Slack ou e-mails em equipes de tecnologia, sem formalismo excessivo e preservando estrangeirismos naturais da área (deploy, feedback, churn);
- Português Simplificado: baseado nos princípios do projeto PorSimples (NILC/USP) e nas diretrizes da Lei 15.263/2025 (Política Nacional de Linguagem Simples), ideal para documentações acessíveis e tutoriais sem jargão hermético;
- Perfis de Consumo Rápido (Assertivo, Enxuto e Resumo): pensados para quem precisa de resposta imediata no terminal, relatórios de status em checklists ou tomada de decisão direta.
Note
Lutar contra estrangeirismos consolidados na computação é outro sinal típico de IA. Forçar implementar no ambiente de produção quando a equipe inteira fala subir em prod cria uma formalidade artificial que ninguém usa.
Como instalar e utilizar
Como faz parte do padrão aberto Agent Skills, a instalação não exige dependências pesadas nem configurações complexas.
Você pode instalar a skill diretamente pelo terminal via npx:
# Instalar a skill humanizar individualmentenpx skills add fabricioctelles/skills -s humanizar
# Ou instalar a coleção completa de skillsnpx skills add fabricioctelles/skillsSe preferir organizar manualmente no seu repositório local, basta copiar a pasta para o diretório de skills do seu assistente favorito:
- Cursor:
.cursor/skills/humanizar/ - Claude Code:
.claude/skills/humanizar/ - Windsurf:
.windsurf/skills/humanizar/ - Kiro:
.kiro/skills/humanizar/
Dentro de cada IDE, o acionamento acontece de forma natural no chat:
"Use a skill humanizar em modo_criacao para rascunhar o README deste projeto no perfil corporativo informal."
"Revise a seção de documentação técnica usando humanizar em modo_revisão. Preserve toda a precisão dos comandos."O valor da voz autêntica
Modelos generativos aceleram a prototipagem de rascunhos em uma velocidade impressionante. Mas transferir texto cru direto para o leitor transfere também o custo cognitivo de mastigar clichês vazios.
A skill humanizar nasceu dessa constatação prática: boas ferramentas não devem substituir o critério humano, mas sim ajudar a cortar a gordura sintética para que a substância técnica se destaque.
O código, os testes e todas as referências de padrões estão disponíveis publicamente no repositório fabricioctelles/skills. Se você também se incomoda com a invasão do texto pasteurizado nas ferramentas que usamos todos os dias, experimente rodar a skill nos seus agentes e veja a diferença prática na tela.